Polvos, lulas e chocos: os cefalópodes mais incríveis que você vai ver mergulhando
Se existe um animal capaz de fazer um mergulhador experiente esquecer o computador de mergulho e ficar hipnotizado, é o polvo. Você observa uma pedra por dez segundos, ela pisca de cor, cria textura de coral, e some numa fenda que parecia pequena demais. O que parecia rocha era, o tempo todo, um dos animais mais inteligentes do oceano te observando de volta.
Polvos, lulas e chocos são os cefalópodes, um grupo que parece ter saído de um filme de ficção científica. Para quem mergulha, encontrar um deles é sempre um dos melhores momentos da imersão. Vale entender quem são esses bichos e como aumentar a chance de vê-los.
O que torna os cefalópodes tão especiais
Cefalópode significa, literalmente, "pé na cabeça": os braços saem diretamente da região da cabeça. Polvos, lulas, chocos e náutilos formam esse grupo, e todos compartilham características que não existem em mais nenhum lugar do reino animal.
Mudam de cor em tempo real. A pele tem células chamadas cromatóforos que permitem trocar de cor e padrão em frações de segundo, seja para se camuflar, seja para se comunicar. Alguns fazem isso sendo daltônicos, o que ainda intriga a ciência.
Mudam de textura. Não é só cor: eles alteram a própria pele para imitar coral, areia, pedra. A camuflagem é tão boa que a maioria dos polvos que existem num mergulho passa despercebida.
São inteligentes de verdade. O polvo tem o cérebro mais desenvolvido entre os invertebrados, com neurônios distribuídos também pelos braços. Resolvem labirintos, abrem potes, usam ferramentas e reconhecem indivíduos. Em cativeiro, são famosos por fugir.
Têm sangue azul e três corações. O sangue usa cobre em vez de ferro para transportar oxigênio, o que lhe dá cor azulada. E são três corações bombeando: dois para as brânquias, um para o corpo.
Polvo, lula ou choco: qual é qual?
Os três se confundem para quem está começando. As diferenças ficam claras quando você sabe o que olhar:
Polvo. Oito braços, sem barbatanas, corpo mole sem concha interna. Vive no fundo, associado a tocas e fendas nos costões. É o mestre da camuflagem e o mais tímido dos três.
Lula. Corpo alongado e hidrodinâmico, dez apêndices (oito braços mais dois tentáculos maiores), barbatanas nas laterais. É nadadora de mar aberto, costuma aparecer em cardumes na coluna d'água, e tem uma pena interna fina como estrutura.
Choco (ou sépia). Corpo mais largo e achatado que o da lula, também com dez apêndices, uma barbatana contínua ao redor do corpo e um osso interno calcário, o famoso "osso de siba". É o mais hipnótico de observar, com ondas de cor percorrendo a pele.
Onde e quando encontrá-los
A maior parte dos encontros com cefalópodes acontece em dois cenários: nos costões durante o dia (para os polvos escondidos) e, principalmente, no mergulho noturno.
Mergulho noturno é a chave. Muitos cefalópodes são mais ativos à noite, quando saem para caçar. Polvos que ficam escondidos o dia todo aparecem andando pelo fundo, lulas se aproximam da luz das lanternas, e a exibição de cores fica ainda mais impressionante no escuro. Se você nunca fez um mergulho noturno, os cefalópodes são um ótimo motivo para experimentar.
Nos costões, procure as pistas. Polvo organiza a entrada da toca com conchas e pedras, o chamado "jardim do polvo". Aprender a reconhecer esse sinal é o que separa quem vê polvo de quem passa reto.
No Brasil, a boa notícia é que cefalópodes aparecem em praticamente todos os pontos de mergulho, de Angra à Laje de Santos, do Nordeste ao Sul. Não é um animal de destino exótico, é morador de casa. As saídas para Angra e Ilha Grande, por exemplo, costumam render bons encontros, especialmente nos mergulhos noturnos.
Como observar sem estragar o encontro
Cefalópode é curioso, mas também é sensível. Para ter o melhor encontro possível:
- Vá devagar e pare. Movimento brusco faz o polvo se fechar na toca ou disparar. Quem chega calmo e espera é recompensado.
- Não force a saída. Cutucar um polvo para ele "aparecer melhor" estressa o animal e arruína o momento. Deixe ele decidir.
- Cuidado com a lanterna no noturno. Luz forte direto no olho incomoda. Ilumine de lado, sem mirar diretamente.
- Flutuabilidade impecável. Chegar raspando o fundo levanta sedimento e espanta tudo. A flutuabilidade é o que permite chegar perto sem incomodar.
- Não toque. A pele deles é delicada e a camada protetora se remove com o contato.
Quem tem paciência às vezes é presenteado com algo raro: o polvo que, em vez de fugir, estende um braço curioso na direção do mergulhador. Não há nada parecido no oceano.
Um mestre do disfarce e da fuga
Vale conhecer o arsenal de defesa desses animais, porque vê-lo em ação é inesquecível:
- A tinta. Quando ameaçados, lançam uma nuvem de tinta escura que confunde o predador e cobre a fuga. Ver isso acontecer num mergulho é um espetáculo.
- O jato-propulsão. Expelem água com força pelo sifão e disparam para trás em alta velocidade.
- A camuflagem instantânea. O disfarce é a primeira linha de defesa, e alguns imitam até o movimento de algas ao sabor da corrente.
- A autonomia dos braços. Alguns polvos conseguem destacar um braço que continua se mexendo, distraindo o predador enquanto o resto escapa. O braço depois se regenera.
Perguntas frequentes
Polvo é perigoso para o mergulhador? Não. São tímidos e evitam contato. A grande maioria é inofensiva. A exceção mundial é o polvo-de-anéis-azuis, que não ocorre no litoral brasileiro.
Qual a melhor forma de ver cefalópodes? O mergulho noturno, disparado. Muitos são mais ativos à noite e a exibição de cores é impressionante no escuro.
Preciso de certificação especial para mergulho noturno? O ideal é ter feito a especialidade de mergulho noturno ou ir acompanhado de instrutor. Não é difícil, mas exige orientação sobre uso de lanterna e orientação no escuro.
É fácil ver polvo no Brasil? Sim, eles vivem em praticamente todos os costões brasileiros. O desafio é enxergar, por causa da camuflagem. Com o olho treinado, aparecem em quase todo mergulho.
Quanto tempo vive um polvo? Pouco. A maioria das espécies vive de um a dois anos apenas. Reproduzem uma vez e morrem, o que torna cada encontro ainda mais especial.
Os alienígenas que moram aqui do lado
Dizem que se quiséssemos imaginar como seria uma forma de vida inteligente de outro planeta, não precisaríamos ir longe: bastaria olhar um polvo. Sangue azul, três corações, pele que fala em cores, um cérebro espalhado pelos braços e uma curiosidade que, às vezes, parece te estudar tanto quanto você o estuda.
O melhor é que esses alienígenas não estão em nenhum destino distante. Estão nos costões de Angra, nas fendas da Laje, no próximo mergulho noturno que você fizer. Basta ir devagar, olhar com atenção e deixar que eles apareçam.
Quer viver seu primeiro encontro com um polvo? Conheça as saídas da Dive For Fun ou fale com a gente no WhatsApp para saber da próxima viagem com mergulho noturno.
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